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Corretor de Imóveis no Brasil: profissão de alto valor, baixa proteção e um futuro incerto

Atualizado: 2 de out. de 2025

Corretor(a) de Imóveis e suas preocupações
Corretor(a) de Imóveis e suas preocupações

Imagine confiar a maior transação financeira da sua vida – a compra de um imóvel – a alguém que recebeu sua habilitação após um curso on-line de cerca de 180 horas, sem estágio obrigatório, sem seguro contra erros profissionais e sem uma entidade que responda solidariamente se algo der errado. Parece arriscado? Esse é o retrato de grande parte do mercado imobiliário brasileiro em 2025.


Enquanto nos Estados Unidos o corretor (Real Estate Agent) é sinônimo de status e confiabilidade, aqui ainda é visto, muitas vezes, como “vendedor de imóveis”. O motivo não está no talento das pessoas, mas na engrenagem que forma, fiscaliza e valoriza a profissão. A seguir, destrinchamos onde o sistema falha, quem paga a conta e quais caminhos podem devolver prestígio – e proteção – a quem intermedia bilhões de reais todos os anos.

O tamanho do problema

  • 437 mil profissionais possuem registro ativo no Brasil, segundo o Cofeci/Creci (2024).

  • Mais de 60 mil novos corretores ingressam por ano; boa parte nunca trabalhou num plantão de vendas antes de abrir CNPJ.

  • O Brasil movimenta cerca de R$ 300 bilhões/ano em compra e venda de imóveis residenciais (Secovi-SP, FipeZap).

Apesar da dimensão do mercado, não existe:

  • Exame nacional unificado;

  • Estágio obrigatório supervisionado;

  • Seguro de responsabilidade civil compulsório;

  • Fundo de compensação ao consumidor.

Quando um mau profissional apropria-se de aluguéis ou dá causa a prejuízos, o cliente precisa travar longa batalha judicial contra o corretor pessoa física. O CRECI, que emite a licença e cobra anuidade (em média R$ 700 a R$ 1.200, conforme o estado), limita-se a abrir processo ético, podendo multar ou cassar o registro. E só.


Onde o sistema falha

a) Formação superficialEm muitos estados, 180 horas de aulas a distância são suficientes para prestar o exame regional. Não há prova prática nem estágio em imobiliária. Resultado: recém-habilitados aprendem “na marra”, muitas vezes cometendo falhas contratuais graves.

b) Fiscalização voltada à arrecadaçãoSegundo dados do Cofeci, mais de 70% das autuações em 2023 referiam-se a exercício ilegal da profissão (pessoas sem CRECI). Processos por má prática de corretores habilitados foram minoria. O foco, portanto, tem sido combater “concorrência desleal”, e não necessariamente proteger o consumidor.

c) Ausência de estrutura de mercadoFalta um MLS (Multiple Listing Service) nacional – plataforma que reúna, com transparência, histórico de valores, exclusividades e responsável técnico de cada imóvel. Sem isso, compradores e vendedores lidam com anúncios pulverizados, preços contraditórios e, por vezes, imóveis já negociados.

d) Falta de seguros obrigatóriosNos EUA, 49 dos 50 estados exigem o Errors & Omissions Insurance (E&O), seguro contra erros que indeniza clientes. No Brasil, esse tipo de proteção é opcional – e raramente contratada.


O contraste com os EUA – o caso da Flórida

Na Flórida, o processo é claro e rígido:

  • 63 horas de curso presencial ou ao vivo + prova teórica estadual.

  • Antecedentes criminais checados pela polícia.

  • O corretor iniciante só atua sob a tutela de um Broker.

  • Após 2 anos de experiência comprovada e 72 horas adicionais de curso, pode prestar novo exame para se tornar Broker.

  • O seguro E&O é exigido na maioria das operações.

  • O corretor segue ainda o Código de Ética da NAR (National Association of REALTORS®), associação privada com poder de sanção civil.

Resultado: uma carreira cobiçada, com honorários padronizados e índice baixíssimo de litígios judiciais.


Quem perde (e quem ganha) com a fragilidade atual

Perdem:

  • Consumidores, que enfrentam fraudes, contratos frágeis e insegurança jurídica.

  • Corretores sérios, que veem a reputação da categoria nivelada por baixo.

  • O mercado, que sofre com informalidade, retrabalho e desconfiança generalizada.

Ganham:

  • A informalidade, que prospera na ausência de barreiras de entrada.

  • Intermediários oportunistas, que se mantêm ativos enquanto a anuidade estiver paga.


Existe saída? Cinco propostas factíveis

  1. Exame Nacional Unificado, semelhante ao da OAB, com parte prática de negociação e análise documental.

  2. Estágio supervisionado de no mínimo 12 meses em imobiliária registrada, comprovado digitalmente.

  3. Criação de um Fundo de Garantia do Consumidor Imobiliário, abastecido por percentuais das anuidades.

  4. Seguro obrigatório de responsabilidade civil em cada transação superior a 30 salários mínimos.

  5. Implementação de um MLS brasileiro, integrado entre CRECIs, trazendo transparência a exclusividades e histórico de preços.


O papel dos players sérios – e da Uphousi

Enquanto mudanças estruturais não acontecem, cabe às imobiliárias responsáveis assumir a dianteira:

  • Investir em treinamento contínuo (contratos, crédito imobiliário, LGPD).

  • Adotar seguros próprios de responsabilidade civil.

  • Divulgar códigos de conduta internos ao cliente, com garantias claras.

  • Utilizar tecnologias de assinatura digital, vistoria com geolocalização e laudos fotográficos.

Na Uphousi, por exemplo, novos consultores passam por treinamentos, atuam seis meses sob supervisão direta e só então podem assinar sozinhos um contrato. Não porque a lei exija, mas porque a confiança do cliente vale mais do que qualquer economia de curto prazo.


O futuro: ameaça ou oportunidade?

Se nada mudar, o mercado tende a se polarizar: poucos hubs altamente profissionais versus enxurrada de “aventureiros digitais” oferecendo imóveis via WhatsApp. A desvalorização da intermediação pode levar o consumidor a tentar vender sozinho, aumentando o risco de golpe e a judicialização.

Por outro lado, a onda global de compliance e proteção ao consumidor pressiona por regras mais duras. Quem se antecipar agora consolidará reputação quando a maré subir.


Conclusão

Ser corretor de imóveis é lidar diariamente com o sonho e o patrimônio das pessoas. Quando o sistema falha em oferecer formação robusta, fiscalização inteligente e garantias reais, todos pagam a conta – menos quem deveria zelar pela excelência.

O Brasil ainda pode virar o jogo: basta migrar do modelo arrecadatório para o modelo de responsabilidade compartilhada. Exame nacional, estágio supervisionado, seguro obrigatório e banco de dados único não são utopia; já funcionam em mercados que inspiram confiança.


Até lá, cabe a cada profissional e a cada imobiliária decidir de que lado da história quer ficar. Na Uphousi, escolhemos o lado que valoriza a credibilidade – e convidamos você, cliente ou colega de profissão, a cobrar e construir o padrão que merecemos.


Junior VasconcelosCEO da Uphousi | Especialista em Negócios Imobiliários

 
 
 

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